Saturday, July 11, 2009

Tumor psíquico



No vale das chuvas, onde reinavam corcéis alados e faziam brilhar suas crinas douradas, ela se perdia andando pelo teto com a pele sentindo as gotas de mel vindo das avessas núvens do arquipélago.

O silêncio, estrondosamente surdo, penetrava-lhe nas entranhas pelos órgãos perdidos e desviados de suas funções.

A brisa úmida, cheirando terra molhada, atingia-lhe as vistas pelo odor transmutado na movimentação pela percepção ininteligível.

As vozes pelo nariz se debatiam arrulhando o clima desse espírito inapreensível.

Ao tempo se servia, enquanto à morte não jazia, explodindo pelas veias o mel amargo a que sua sede não satisfazia, contudo o dourado expandia seu brilho pelos poros que tanto ardiam naquela transcedente vivência que a surpreendia.

No desvalor daquela existência malquista e desprezível subiam e desciam os ares compostos e decompostos em involuntárias recepções e doações à sua revelia.

No entremeio, após receber o sopro da vida um pouco antes de doá-lo, então sentia o nada, o tudo, a inutilidade de toda a algaravia imaginada de fractrais mentais dissolvidos no deslizamento sem fundamento deste decorrer do tempo paralizado nesse andamento.

Tuesday, July 7, 2009

Frio



Não enxergo luz no futuro. Estou com frio, medo, confusa. Parece que muita gente espera coisas de mim e sou depreciada porque não respondo. O mundo inteiro contra e querendo-me mal, embora isso não seja externalizado. Uma pressão forte no peito, muito medo e tristeza.

Desejo ser autora de minha história, escrever o meu destino, assinar minha identidade, com orgulho e liberdade, contra a hipocrisia e trivialidade, aguentando as pressões e as superando com minha personalidade. Possuo ser, interioridade, inatingíveis por quaisquer pretensas autoridades.

Sou bebê no saber, idosa no sofrer, jovem no incompreender...

Questiono a vida, questiono a morte, questiono a Lei, questiono a sorte...
O que quer a dúvida nesta incômoda aguilhoada que perfura meu coração?

Tenho nome e história, família e memória, objetos e trajetória, só careço de projeto e vitória.
Tenho estudo e sentimento, tenho lazer, divertimento, só careço de uso e fundamento, talvez discernimento.
Tenho educação e cultura, só careço de estima e aventura.
Tenho habilidades e defeitos, careço intimidade e respeito, talvez também de preceitos...


Thursday, June 25, 2009

Psicose






"A loucura é aterradora, posso assegurar-te isso, e vale a pena tê-la em conta: na sua lava encontro ainda a maior parte das coisas acerca das quais escrevo."
(V.Woolf in 'carta a Ethel Smith')


Um surto psicótico abala a maior intimidade e os valores mais profundos de uma pessoa e ela se vê obrigada a revê-los e reelaborá-los, porém sem qualquer segurança transcendental como a oferecida pelas religiões.

Pode-se acreditar que as pessoas riem de si e que se é a causa de todos os problemas. Frequentemente há necessidade de se ser castigado. Sente-se um corpo monstruoso, os detalhes das coisas ficam sinistros, bestiais, aterrorizantes, sons não deixam ler, pensar, concentrar direito...


Saturday, June 20, 2009

Atualizando



Eu tenho uma missão, temo não conseguir cumpri-la como deveria. Não possuo este íntimo conhecimento e vivência de loucura, o raciocínio-lógico rápido, a sensibilidade à transcendência e a facilidade espontânea com a escrita à toa. Alguns escreveram ou escrevem pelos analfabetos, pelos idiotas, pelos criminosos, pelos homossexuais ou pelos animais. Outros, como eu, escrevem pelos loucos, não para eles. Isso não é pouco ou fácil. Escrever pelos humanos realizados, adaptados, vitoriosos dá dinheiro, prêmios e reconhecimento. Mas escrever pelos loucos é admitir também os defeitos deles, não um elogio ou apologia à doença mental, todavia um dar voz através do reconhecimento e apresentação dessa condição de ser tal como é. Esta é minha missão, ainda que sabendo só a idéia já ser considerada algo de delírio de grandeza ou ideal inatingível que causará ainda mais dor, despreza e incompreensão se não chegar ao mínimo necessário da meta. Os obstáculos são tudo e todos e, no entanto, é essa a minha tarefa. Não de hoje, ontem ou amanhã, sempre foi. Apenas estou atrasada. Também o masoquismo primordial, freudianamente, é outro grande obstáculo.

Tuesday, June 16, 2009

Extravagância


A natureza
É exótica


O amor
Também



E assim
A arte

Tentando expressar
Harmonia e paz

Com o que
For capaz


Friday, June 12, 2009

Ainda confio




Silêncios conectados onde pensamentos
sintonizados, parecem darem-se as mãos.
Eu nunca me senti assim antes.

Perdi o ponto onde errei, olho o firmamento.
Embora eu sinta a tua graça em coração, nada é com'antes,
A dor da saudade imensa, do saber a verdade alienante,
Ver de perto a audácia do que nos tirou do sério

E ainda confio na tua fidelidade.
E ainda confio na tua verdade.
E ainda confio na tua essência branda.
Mesmo após a intromissão da realidade nefanda.

Nebulosas dúvidas hoje fazem sentido,
não que seja o melhor, apenas mais autêntico
quando indago por que demoramos tanto e, comigo,
é o teu coração que eu sinto pulsar.
Agora não é mais a experiência adolescente a se tratar

É a descoberta da responsabilidade, toda ela.
Onde entrego-te minhas poucas energias restantes.
Acreditando no devir, no teu poder de ser feliz.
E, assim, desarmada, confesso-me apaixonada
Esperando, confio a ti, a escolha: serei-te a amada?

~

Saturday, March 14, 2009

Fantasma




Oh fantasma de minha vida
Aparece e mostre-me a tal ferida
Cena infantil, memória, trauma, fantasia mil

Romance eterno que vivo hodierno
Mutações ao acaso, perdi-me na sequência
O que aconteceu, acontece, acontecerá?

Sei lá nem implica compaixão divina
Constrói com energia, começa na ativa
História desfacelada, criticada, escandida

Reduzir em uma frase
Toda a culpa que me tira
Benefício, ao devir, nem se pronuncia…